Engravidar depois dos 30 (Palavras do Ginecologista)


 

Na década de 50, as mulheres se casavam muito cedo, considerando os padrões de hoje. Tinham seus filhos entre 18 e 25 anos, e aos 40 anos, a mulher já era avó. Há vinte anos ainda eram raras as mulheres que engravidavam depois dos 30. Nessa época, ter filhos depois dos 35 significava risco de vida: para a mãe e o bebê.

Entre 1991 e 2000, segundo dados do IBGE, o número de mães com mais de 40 anos no Brasil cresceu 27%. As que tiveram um filho, pela primeira vez, com idade entre 40 e 49 anos, fazem parte de um segmento populacional com alta escolaridade.

A queda na fertilidade com o avanço da idade é um fato biológico. Estima-se que a chance de gravidez por mês é de aproximadamente 20% nas mulheres abaixo de 30 anos, mas de apenas 5% nas mulheres acima dos 40. Mesmo com os tratamentos para infertilidade, como a fertilização in vitro, a fertilidade diminui e as chances de um aborto espontâneo aumentam após os 40. “Há várias explicações para esse declínio de fertilidade: condições médicas, mudanças na função ovariana e alterações na liberação dos óvulos pelos ovários“, afirma o ginecologista Aléssio Calil Mathias, diretor da Clínica Genesis. A mulher de 40 anos também tem mais chances de apresentar problemas ginecológicos, como infecções pélvicas e endometriose, que podem diminuir a fertilidade. Exames como a histerosalpingografia ou a laparoscopia podem ser requisitados para diagnosticar algumas dessas condições.

Alterações nos ovários

“A queda nas chances de engravidar é mais frequente devido às mudanças naturais que ocorrem nos ovários da mulher“, explica o ginecologista Aléssio Calil Mathias. À medida em que a mulher envelhece, os óvulos remanescentes também envelhecem, tornando-se menos capazes de serem fertilizados pelos espermatozóides.

Outro fator a ser ponderado é que a fertilização desses óvulos está associada a um risco maior de alterações genéticas. “Por exemplo, alterações cromossômicas, como a Síndrome de Down, são mais comuns em crianças nascidas de mulheres mais velhas. Há um aumento contínuo no risco desses problemas cromossômicos conforme a mulher envelhece“, explica o médico. Quando os óvulos com problemas cromossômicos são fertilizados, eles têm uma possibilidade menor de sobreviver e crescer. Por essa razão, mulheres que estão acima dos 40 anos têm também um risco aumentado de abortos espontâneos.

Grávida aos 40…

Normalmente, mulheres que esperam para ter filhos perto dos 40 anos são profissionais de vida corrida, que trabalham muito. “Elas terão que aprender a diminuir o ritmo em prol do bem estar do bebê”, defende o médico. Existe muita preocupação com a gravidez tardia, considerada de risco, mas esta poderá correr tranqüilamente, se a mulher contar com o acompanhamento médico adequado. Recomendamos às mulheres que desejam engravidar perto dos 40 anos de idade alguns cuidados. O primeiro deles é procurar o ginecologista antes da concepção. Depois, é importante fazer exames laboratoriais de rotina, tais como hemogramas, tipagem sangüínea, sorologias, exames de urina. Se tudo estiver bem, recomendamos também uma suplementação vitamínica de ácido fólico, três meses antes da concepção, para diminuir o risco de malformação do sistema nervoso central do bebê“, explica o médico.

Como as grávidas perto dos 40 anos estão mais sujeitas a abortamento, “depois de confirmada a gravidez, a mulher deve fazer um exame de ultrassom para verificar se o embrião está dentro do útero e se a gestação é única ou múltipla. Mulheres nesta faixa etária também estão mais propensas a ter gestações múltiplas, anômalas ou fora do útero“, diz o ginecologista. O ultrassom permite diagnosticar a gestação anembrionada, com desenvolvimento do saco gestacional, mas sem formar o embrião.

E se a gravidez não vier naturalmente?

Se a mulher chegar aos 40 anos de idade sem conseguir engravidar naturalmente, ela poderá contar com diversos tratamentos nas clínicas de reprodução humana. “Para cada caso há uma indicação terapêutica: uma indução da ovulação, uma fertilização in vitro, a doação de óvulos ou a doação temporária de útero, dentre muitos outros tratamentos”, diz Mathias. Uma das técnicas de reprodução assistida mais simples, utilizada quando a mulher não ovula regularmente, consiste em administrar hormônios para superestimular os ovários. Normalmente, a mulher produz um óvulo por ciclo menstrual. Com o medicamento, ela pode formar diversos folículos e liberar muitos óvulos. Entretanto, não é recomendável realizar a inseminação intra-uterina quando há mais que três folículos, devido ao risco de uma gravidez múltipla. Este método funciona em 10% dos casos indicados.

Já situações mais delicadas exigem a inseminação artificial. Os espermatozóides do marido ou de um doador são recolhidos, assim como os óvulos, e a fecundação é feita “artificialmente”, fora do corpo. “A chance de sucesso é de 30%, dependendo da paciente. Após, no máximo, três tentativas, a probabilidade de gravidez para uma mulher com mais de 35 anos pode aumentar em até 50%”, informa o especialista.

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